Se formos depender dos comentaristas de IA da internet, em breve viveremos no mundo do Super Mario Bros, onde só teremos encanadores e NPCs controlados por IA.
Parece que a profissão de encanador está entre as preferidas entre aqueles que sugerem profissões seguras para quem não quer ser ameaçado de perder espaço para a IA. E, de fato, talvez esta seja uma das profissões que sofrerão menos impacto num mundo pós-IA, mas o quão sério é de fato esse tipo de recomendação? Estaríamos nós diante do fim dos "trabalhos de escritório" feitos por seres humanos?
É sobre isso que pretendo escrever hoje.
A sua profissão está prestes a desaparecer? Ou está prestes a mudar radicalmente?
Não há como negar que existe um enorme interesse nesse tópico. As perguntas em volta do tema "fim de alguma profissão" não páram de chegar e eu já toquei no tema aqui no Journal pelo menos duas vezes:
Mas, da última vez, a pergunta veio em uma forma diferente, mais abrangente. A ideia por trás da pergunta era entender se os "trabalhos braçais" vão se valorizar e se valeria à pena migrar para eles uma vez que "a IA não seria capaz de fazê-los".
Bem, há muitos pontos para cobrir aqui, então comecemos pelo seguinte: será que sobra algo para fazermos dentro de um escritório, na frente do computador?
Se você assistiu meu vídeo sobre Inteligência Artificial no Youtube, sabe que na minha visão, sim, ainda haverá muita coisa para se fazer dentro de um escritório e os tipos de tarefas que ficam na mão dos seres humanos, para mim são:
Tarefas de alta criticidade que demandam accountability forte de alguém (responsabilização)
Tarefas envoltas em muita ambiguidade / abstração onde é preciso decidir em cenários dinâmicos (julgamento)
Em outras palavras: a forma de chegar ao resultado pode até mudar, mas sempre que precisarmos de um humano para se responsabilizar por algo, ou para decidir por algo onde há múltiplas possibilidades de respostas certas (ou erradas!) teremos uma tarefa de alta proteção contra automação por IA.
É por isso que os maiores ameaçados pela IA sempre foram os profissionais Júniores. Normalmente eles não têm experiência para assumir algo de alta criticidade, nem têm bagagem para navegar e decidir em cenários ambíguos ou muito dinâmicos.
E, aqui, aproveito para dar uma dica a estes Juniores que estão tentando ingressar no mercado de trabalho atualmente: tornem-se os melhores usuários de AI da sua profissão. É isso que pode compensar o seu gap de experiência, enquanto você ainda não a tem. Uma parte ENORME de profissionais sêniores vão se recusar, ou vão ignorar, ou terão dificuldade de se adequar ao novo cenário de suas respectivas profissões na era pós-IA. Essa é a janela de entrada para o Júnior.
Um segundo ângulo que podemos explorar em cima daquela pergunta original é: OK, ainda haverá espaço escritório. Mas será que estes trabalhos ainda valerão à pena?
E aqui teremos um monte de "dependes".
Depende dos objetivos de vida, da vocação, das preferências e sentimento de realização pessoal que cada um terá com cada tipo de trabalho. Do ponto de vista financeiro, você só chegará no topo de remuneração da sua profissão assumindo cargos de altíssima responsabilidade (onde um erro ou acerto implica em impacto enorme para a instituição que você representa), ou construindo um negócio que deu muito certo (o que normalmente também trará altíssima responsabilidade).
Já no meio do caminho de uma carreira, que é onde a maior parte dos profissionais tendem a ficar, do ponto de vista financeiro, a discussão ganha uma abrangência maior porque vamos precisar passar pelo tema de oferta profissional.
A inflação do diploma: sim, o seu diploma vale menos hoje (e não é culpa da IA)
Se a economia não vai bem, a demanda por quase todo tipo de profissional, cai. Mas e se, além de uma economia fracaBrasil 2026:
• Taxa de juros de mais de 14% - maior juros real do mundo. Consegue ser pior que o da Rússia, que é um país SANCIONADO e em GUERRA.
• 82% das famílias brasileiros ENDIVIDADAS.
-29,9% de Inadimplência: a maior da história.
• Mais dinheiro circulando em BETS (R$ 300+ bilhões) do que: bolsa família, educação pública, o ecommerce inteiro do país... o valor chega a ser quase METADE do que o Brasil inteiro investe em Construção Civil.
• Recorde de empresas falindo, entrando em Recuperação Judicial: quase 7.000 no ano.
Um desastre completo., tivermos EXCESSO de profissinonais em cada atuação?
À medida que mais pessoas foram ganhando acesso às universidades, e estas, por sua vez, foram abrindo cada vez mais seu leque de cursos, um número crescente de pessoas optou cada vez mais por formações em profissões que estão distante dos "trabalhos braçais". O resultado é uma escassez de oferta de profissionais técnicos, como eletricista, encanador (olha ele aí de novo!), mecânicos, etc e um excedente monstruoso de outros tipos de profissionais, como veremos mais adiante.
A valorização deste tipo de prestador de serviço "braçal", começou muito antes da IA chegar e, a menos que haja um aumento de oferta de profissionais nesse sentido, a tendência é continuar valorizando. Aliás, algumas dessas profissões tendem a surfar, além da escassez de oferta, um boom de demanda, que pode fazê-las dar um salto extra de valorização no meio do caminho. É o caso dos eletricistas, por exemplo. O maior novo mercado que existe é o mercado de IA e, atualmente, a base da infraestrutura desse mercado é feita de datacenters gigantescos, obras faraônicas multi-bilionárias, que vão precisar muito de... eletricistas e prestadores de serviços "braçais" de natureza similar. É o aumento dessa DEMANDA que gera a valorização, e não a capacidade de "automação" da IA em si. Porém, este não é um fenômeno que se dá em todas as geografias, muito menos na mesma intensidade (o Brasil mesmo ainda não está participando dessa festa da infraestrutura de IA).
Mas há o outro lado da moeda. Existe uma quantidade enorme de profissões que estão desvalorizando... por excesso de gente formada em uma economia onde a demanda não acompanhou.
Na verdade, de modo geral, o "prêmio" de remuneração para quem tem diploma caiu no mundo todo. Eu decidi pesquisar um pouco mais a fundo estes números e encontrei algumas coisas curiosas.
Nos EUA o prêmio de quem tinha diploma para quem não tem saiu de 79% → ~75%
No Brasil, nos últimos 12 anos, caiu de 152% → 126%
Pois é, a queda é grande, mas é inegável que o diploma ainda vale muito no Brasil. Entretanto, vale destacar que esta queda não é igual para todo mundo.

Como se pode ver, algumas profissões estão sofrendo muito mais que outras e isso não tem nada a ver com IA ainda. É puro excesso de gente para a demanda que existe no momento.
A Advocacia é um caso interessante. O rendimento dos advogados em exercício ficou flat nesse período, mas o problema é que existe uma massa gigantesca de gente formada em advocacia que não exerce profissão e com isso têm a renda, obviamente, muito abaixo do padrão da profissão. Só para se ter uma ideia, o caso da advocacia no Brasil é tão bizarro, que nosso país tem mais cursos de direitos do que todo o resto do mundo somado. Só entre 2020 e 2024 foram mais de 560.000 formados.
Chama atenção também a Medicina, perdendo 37% do rendimento para os profissionais sem especialização e 13% para os especialistas. Detalhe: as vagas em faculdades de medicina mais que dobraram desde 2013.
Mas o caso mais assustador de "inundação" de profissionais está em Pedagogia. Este é o maior curso do Brasil. Só em 2024 foram 888.000 matrículas... num país onde temos cada vez menos filhos e crianças em idade escolar. Agora, pense também, que muita gente ainda está fazendo dívida (majoritariamente financiada pelo estado), para se formar em uma profissão com um excedente descomunal de profissionais disponíveis no país. Pois é.
Mas, afinal, os "trabalhos braçais" estão se valorizando, ou não?
Sim, eles estão se valorizando. Mas o ponto aqui é: será que a valorização deles é suficiente para torná-los interessantes para alguém planejar uma mudança de carreira para um deles?
Isso é o que eu encontrei sobre alguns destes trabalhos.

É claro que um autônomo eletricista pode ganhar bem mais que os R$ 2.500 (ou até os R$ 4.000) da tabela, mas é importante fazer bastante conta antes de considerar por uma mudança de carreira desse tipo, a depender é claro, de onde você está hoje.
Sobretudo no Brasil, estes trabalhos ainda são muito pouco valorizados (nos EUA/Europa isso muda substancialmente, mas ainda assim, não é óbvio). Ainda que eles tivessem uma valorização grande, existe um gap importante para outras profissões que tem se sentido mais ameaçadas pela IA. Estas outras profissões teriam que cair muito e estes serviços precisariam valorizar muito para o gap fechar.
O que manda é a Lei da Oferta e da Demanda: mesmo amanhã
É muito comum ver quem prega que as pessoas deveriam começar a migrar para trabalhos braçais, dizer isso em função da premissa que a IA irá tomar conta de todo o trabalho de escritório. Porém, se isto acontecer, e de fato a IA tomar todo o trabalho de escritório, uma grande parte dessas pessoas que trabalhavam no escritório antes serão "empurradas" para estes ofícios / trabalhos braçais. Isso implica em um aumento de OFERTA desse tipo de serviço, e portanto, cria uma força contrária à valorização.
Então, talvez, se você está pensando que a IA é uma boa justificativa para mudar de carreira para os "serviços braçais", pense bem. Existe uma chance do efeito dela se anular devido ao aumento de oferta, sem o devido aumento de demanda.
OK, então como pensar sobre carreira no momento atual?
O momento atual é de muita especulação, o que normalmente gera decisões baseadas em medo, e não necessariamente baseadas em alinhamento de objetivos, vocação, inclinação natural, etc, que são coisas capazes de compor para gerar vantagem a alguém construindo uma carreira.
Eu só posso dizer o que eu faria: não tomaria a decisão de mudar de carreira baseado em especulação sobre o que a IA pode, ou não pode fazer com minha profissão atual. Eu precisaria ter muito mais convicção para isso.
Eu pensaria antes em entender as implicações da tecnologia na minha profissão atual e ver qual a melhor forma de usá-la. A maioria das pessoas vai levar TEMPO DEMAIS para "pegar" o que está acontecendo. Essa me parece ser a grande oportunidade. Volto a dar o exemplo dos devs. Um dev que hoje é fluente em IA, vale muito mais do que um dev comum com o mesmo nível de experiência. Enquanto muitos vão resistir e segurar a mudança por receio, aqueles que a fizerem primeiro são os que terão mais espaço no mercado pela simples lógica que eles conseguem causar muito mais impacto no negócio.
E as premissas que eu citei aqui mais cedo seguem muito válidas para praticamente todas as profissões:
Quanto mais necessidade de accountability e de julgamento, menos risco de automação existe naquela função.
Por fim, para se diferenciar como profissional aqui vão alguns itens que eu considero que terão maior peso...
Gosto (que tem 100% a ver com julgamento)
Domínio do problema (oriundo de experiência/vivência em determinada área)
Comunicação / articulação (e mais o conjunto base de soft skills)
Credibilidade (a moeda mais valiosa de todas em 2026+)
Comunidade (audiência, acesso à distribuição da sua mensagem)
Capacidade de aprendizado (e adaptação)
Criatividade (resolve problemas que surgem em formas e cenários diferentes)
O momento agora é de muita mudança, muita especulação, e muita oportunidade, portanto... muita calma, trabalho e estudo nessa hora.
O que você acha disso tudo? Tem pensando sobre o tema? Adoraria saber nos comentários como você tem pensado sua carreira neste cenário.