Ter um filho. Plantar uma árvore. Escrever um livro.
Pois é, escrever um livro está no conjunto de metas de vida "padrão" da maioria das pessoas, mas tirar esse projeto do papel — ou melhor, colocar esse projeto no papel — implica escolher entre diferentes caminhos.
A primeira opção, é claro, seria simplesmente não publicar nada. Penso ser muito legítimo escrever para si mesmo e deixar o livro na gaveta. O livro acaba se tornando não um produto público, mas um instrumento de evolução do seu pensamento e da sua capacidade de articular ideias.
Mas, se você pretende deixar que o mundo conheça a sua obra, uma hora você terá que escolher como publicar seu livro. Felizmente, onde antes existia somente uma opção — diga-se de passagem uma opção extremamente fechada —, hoje, existe mais um caminho: a publicação independente.
Foi assim que eu publiquei Entre Ruínas e Reinos, minha obra de fantasia épica, e dentre todos os aspectos, os que eu mais considerei na hora de optar por este modelo foram estes sete aí. Explico em seguida.
| Pub. tradicional | Pub. Independente | |
|---|---|---|
| Logística automatizada (fabricação/entrega) | ✅ | ✅ |
| Serviços literários (edição, revisão, diagramação,...) | ✅ | ❌ |
| Direitos sobre a obra | ❌ | ✅ |
| Controle editorial | ❌ | ✅ |
| Velocidade de publicação | ❌ | ✅ |
| Prazo de recebimento típico | ⚠️ duas vezes por ano | ✅ todo mês |
| Distribuição (marketing) | ⚠️ talvez | ❌ |
Logística automatizada
Ambos conseguem entregar uma boa operação, automática, transparente. Fabricação do livro, envio para o comprador, sistema de devolução em caso de defeitos, controle de estoque. Tudo isso tem solução na publicação independente (ex: o combo da Hotmart + UiClap, o mesmo que eu uso no meu livro), e claro, no modelo tradicional isso fica 100% na mão da editora. Check, check.
Serviços literários
Edição, revisão, diagramação, copidesque, leitura crítica... A editora cuidaria de tudo isso. Se você é um autor independente, é você quem cuida. A boa notícia é que hoje existe um mercado inteiro de profissionais capacitados para prestar cada um desses serviços literários, a má notícia é quem paga é você. No relatório do mercado editorial que eu publiquei aqui, você pode ver uma média do preço de cada um desses serviços. Portanto, sim, você consegue resolver sendo independente, porém, há um custo que é inteiramente seu.
Direitos sobre a obra
Uma vez que você assina com uma editora, os direitos são dela. Normalmente, isso impica que a editora pode licenciar sua obra e comercializá-la em diferentes formatos e adaptações, o que pode ser incrível para o autor, caso de fato ela esteja correndo atrás de fazer isso pelo seu livro. Ela também pode vender sua obra onde desejar e, inclusive, parar de vender sua obra, ou nunca mais imprimir seu livro, caso ela entenda que isso é mais vantajoso para ela. Do mesmo modo, isso significa que se você quiser fazer algo diferente com a sua obra, isso só acontecerá se eles quiserem também.
Controle editorial
A sua criatividade e estilo podem não agradar 100% os interesses da editora que se propôs a te publicar. Nesse caso, você precisará estar disposto a conformar a sua obra para se encaixar melhor com os objetivos da editora, ou pode ser que o contrato não vá para frente. Alterações nos personagens e roteiro pode acontecer para tornar a obra mais comercial e atingir um público alvo maior (o que não é necessariamente ruim, a depender dos objetivos do autor), ou preencher algumas das políticas que a editora definiu para si mesma. Novas edições do livro, onde você deseja modificar algo, também precisariam de aprovação explícita.
Na publicação independente, está tudo na sua mão. É a sua história 100%, e ela vai para onde você quiser. Esta, inclusive, era um parte extremamente importante para mim.
Velocidade de publicação
Quando eu terminei meu livro e fui conversar com autores experientes do mercado me disseram que a partir dali seria no mínimo mais 2 anos até eu conseguir publicar via uma editora. Eu já estava há mais de 10 anos com esse livro em aberto, eu queria terminar. Depois que terminei o terceiro manuscrito, foram alguns meses até o "produto livro" ficar pronto (capa, diagramação, etc) e ele estava no mundo. Isso para mim também era um quesito bem importante.
Prazo de recebimento
Uma editora típica vai pagar o autor duas vezes por ano. No modelo independente, o pagamento é feito todo mês. Dependendo da plataforma, se usar a Hotmart para vender por exemplo, o valor das vendas pode ser recebido tão rápido quanto 2 dias. Entre 2 dias e 180 dias a diferença é brutal demais para ser ignorada. Isso significa ter fluxo de caixa para investir na divulgação do seu livro ou do seu perfil como autor, e se a editora não for fazer isso pra você com bastante intensidade, eu considero que é melhor fazer eu mesmo e ter o dinheiro na mão para fazê-lo.
Distribuição (marketing)
Aqui entra o ponto mais sensível de todos. Antigamente o único jeito de colocar um livro no mundo era via uma Editora. Não era possível que um indivíduo pudesse fazer seu livro chegar às pessoas sem passar pelo canal de mídia e distribuição de alguém. As redes sociais mudaram isso.
A consequência disso é que, agora, nós, autores independentes, podemos fazer nosso próprio marketing, porém, mais que isso, fazer o nosso próprio marketing é desejável e traz um tipo benefício que é difícil de abrir mão. Ter uma audiência própria e poder falar com ela quando quiser, é um superpoder para um autor. Não à toa, o mercado editorial vem passando por uma transformação importante, onde os bestsellers nascem nas redes sociais e os livros passam a ser um produto que representa determinado fandom (comunidade).
Dito isso, prover distribuição e marketing passa a ser algo crítico na proposta de valor de uma Editora. Se o autor se vincular a uma editora que não consiga entregar isso, basicamente ele está deixando seu livro à deriva, e sem ter o capital mínimo para que ele mesmo pilote o próprio marketing, afinal ele sobrará apenas com 10% do preço de capa por livro.
Na publicação independente, a margem do autor por livro é chega a 40%, 50% até 60%+ do preço de capa em alguns casos. Isso cria unidades econômicas que de fato permitem o autor a sair do lugar investindo no crescimento da própria comunidade e na venda direta do livro através de anúncios em redes sociais.
E então, qual escolher?
Acredito que todos concordamos que não temos aqui um certo e um errado. Entretanto, no meu ponto de vista, o quesito mais sensível acaba sendo o marketing. Todos os demais são contornáveis e tem prós e contras mais equilibrados.
No final, se a Editora for fazer a distribuição e o marketing de forma séria pra você, penso que vale a pena considerar a publicação tradicional porque os demais benefícios são muito bons. Se eles não forem investir de verdade no seu marketing e distribuição, vale mais considerar uma publicação independente.
E se você pensa em publicar um livro, me diga me conte mais dele nos comentários. Adoraria saber no que você está trabalhando por aí.