J. P. Resende Inscrever-se
Artigo · Futuro & IA
Pergunta recebida

Assim como a profissão de programador como você enxerga profissões criativas como Design, Edição de Vídeo e Copywriting?

Esta pergunta chegou aqui no meu Journal e é uma referência ao meu artigo anterior sobre "O Fim dos Programadores", se você ainda o leu, pode ser uma boa ideia começar por lá:

O Fim dos Programadores (e o que muda a partir daqui) Os frontier labs e até mesmo os fabricantes de chips decretaram o Fim dos Programadores. Mas aí, isso aqui aconteceu... joaopedroresende.com

Eu acredito que Designers serão um caso similar ao dos programadores. Ganharão MUITA alavancagem, e portanto, haverá desconcentração de designers em qualquer empresa/segmento onde haja muitos deles atualmente. A entrega do designer também vai acabar sendo empurrada mais para frente. Se antes — numa empresa tecnologia — o designer entregava um Figma, agora será esperado que ele entregue pelo menos um protótipo navegável muito mais funcional.

Além disso, há um outro fenômeno que começará a acontecer com (bons) Designers (e também Devs), e que eu não quis citar no artigo anterior para não misturar muito os assuntos. Estou falando de um aumento de opcionalidade de carreira, quando agora designers também podem se tornar "Builders".

Eu consigo totalmente enxergar designers, programadores e pessoas de produto se inclinando para atuarem como "Builders", capazes de, individualmente (ou em times muito pequenos), construírem produtos do zero com as novas tecnologias de IA.

Designers, engenheiros e pessoas de produto, cada qual vindo com sua bagagem e qualidades, mas todos podendo convergir para um papel que será cada vez mais comum nas empresas, e que estou chamando aqui de Builder. E, note que eu disse papel, não disse cargo. Um papel é algo que você pode ocupar em determinado momento/projeto, e depois voltar a ocupar outra função. Talvez em um momento você esteja definindo as políticas e padrão de qualidade de UX da empresa, em outro momento você é Builder de um produto novo, usando justamente uma IA treinada nesses padrões para construir.

Não acredito que esta sequer será a única possibilidade nova. Builders não serão o único papel a surgir nesse cenário. Há outros, mas prefiro deixar para falar deles em outra ocasião.

Em Edição de vídeo, a disrupção não fica para trás. Se as pessoas ficam impressionadas com os vídeos que leigos criam com IA, é porque ainda não viram o que um profissional é capaz de fazer com essa mesma ferramenta. Para mim, aqui existe um destrancamento de potencial absurdo. O designer ganha muita velocidade, mas em edição de vídeo, a mudança não toca apenas "fazer as coisas que já fazemos mais rápido", mas abre o leque para se fazer coisas que eram simplesmente impossíveis sem uma quantidade monumental de capital.

A qualidade do que já é possível fazer com equipes muito pequenas vai chacoalhar Hollywood. Vou dar apenas um exemplo. O canal Gossip Goblin (que eu acompanho há bastante tempo) faz filmes de 20-30 minutos com IA, e este é o nível que eles conseguem chegar, com uma equipe de ~15 pessoas.

Apenas para referência, um longa metragem de fantasia/sci-fi típico de Hollywood normalmente terá entre 1.000 e 3.000 pessoas participando. Pouquíssimos estúdios conseguem acessar capital suficiente para bancar isso.

Mas, talvez você esteja com uma certa pergunta na sua cabeça... O que acontecerá com essas 3.000 pessoas de hollywood, então?

Pois é, já pensou se fosse possível criar filmes desse nível NÃO SOMENTE em Hollywood? O fenômeno será o mesmo: desconcentração. Muito mais estúdios, de portes e ambições distintas, conseguindo criar produções de altíssima qualidade... em toda parte do mundo.

Isso favorece o estúdio indepedente, aquele cineasta que sempre sonhou em produzir seu filme e jamais teria capacidade financeira de fazê-lo, um grupo de amigos que se junta para transformar sua criatividade em histórias — sem quase nenhum limite derivado de equipamentos, tamanhos gigastecos de staff, locações impossíveis de pagar, etc.

Para mim existem duas palavras que resumem bem o fenômeno de IA e que se aplicam à uma quantidade grande de cenários: alavancagem e desconcentração.

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